Biocompetitividade é resultado direto da integração do agro

O “Fórum Integração e Biocompetitividade: A Solução Brasileira”, organizado pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) e pela Rede ILPF (Integração Lavoura Pecuária-Floresta), realizado em 2 de março na capital paulista, reuniu autoridades, lideranças, empresários, engenheiros, técnicos, pesquisadores e profissionais do agronegócio para enfatizar como a biocompetitividade é resultado direto da integração entre o setor, as cadeias produtivas e os agentes. O evento foi organizado pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) e pela Rede ILPF (Integração Lavoura Pecuária-Floresta).

“A biocompetitividade é a consequência natural de um sistema integrado, científico e bem estruturado”, disse Luiz Carlos Corrêa Carvalho, vice-presidente da ABAG, no encerramento do evento. Segundo ele, o agro brasileiro vive uma nova realidade que exige preparo técnico e inovação institucional. “Estamos diante de um novo cenário. Precisamos de capacidade técnica, de um sistema financeiro mais moderno e alinhado às demandas do campo e, principalmente, de integração”.

Por isso, para Carvalho a conexão entre os elos produtivos é o caminho para consolidar esse novo ciclo. “A integração dos sistemas é fundamental para garantir escala, sustentabilidade e competitividade ao Brasil”. 

O evento foi aberto por Francisco Matturro, presidente executivo da Rede ILPF, que destacou a relevância histórica do Fórum, ao lembrar que “março é um mês importante para a Rede ILPF. O Dia de Campo realizado em 2007, na Fazenda Santa Brígida, tornou-se um marco e hoje é referência quando falamos de sistemas integrados no Brasil”. Para ele, valorizar a pesquisa é reconhecer o papel estratégico dos pesquisadores no fortalecimento do agro nacional. “O agro é forte porque é sustentado pela pesquisa”. Matturro mencionou ainda o fato de que o Instituto Biológico terá uma área experimental de ILPF em breve.

Luiz Carlos Corrêa Carvalho, vice-presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), ressaltou a solidez histórica da agricultura brasileira e a necessidade de ampliar a integração entre os elos do setor. “Antes mesmo da Embrapa, já contávamos com instituições como o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e o Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). Construímos um sistema forte ao longo das décadas, mas ele precisa ser cada vez mais integrado”.

Para Geraldo Melo Filho, secretário de Agricultura e Abastecimento do Governo do Estado de São Paulo, o agro brasileiro tem como referência o produtor, mas também a pesquisa e a ciência. “A pesquisa é a ponte entre a dúvida que nos inquieta e a ciência que nos coloca no caminho do desenvolvimento.” Segundo ele, o Estado deve estar ao lado do produtor e participar ativamente desse processo de desenvolvimento.

Ainda na solenidade de abertura, Ana Eugênia de Carvalho Campos, diretora-geral do Instituto Biológico, destacou a missão histórica da instituição no apoio à cafeicultura e à sanidade agropecuária, enquanto Ana Paula Packer, chefe Geral da Embrapa Meio Ambiente, enfatizou a necessidade de visão estratégica para garantir a evolução do setor agropecuário.

Integração dos sistemas e biocompetitividade

O agronegócio é uma grande potência verde e o Brasil tem vantagens competitivas únicas: matriz energética diversificada, clima favorável, disponibilidade de água, e enorme biodiversidade. Por isso, o país tem a capacidade de atender as demandas ligadas à segurança alimentar e transição energética. “Temos condições de liderar a bioeconomia, mas precisamos assumir esse protagonismo”, disse Mathias Schelp, vice-presidente para Agricultura Inteligente da Bosch América Latina, na palestra inaugural.

Em sua palestra, Schelp detalhou algumas inovações para ampliar a competitividade do agro, como soluções de aplicação para defensivos e a tecnologia dual etanol-diesel para equipamentos pesados, a fim de diminuir o consumo de diesel, ampliando o uso do etanol. “O caminho exige um esforço em conjunto, prioridade estratégica para ampliar práticas sustentáveis, fomentar políticas públicas, aumentar a produtividade e fortalecer todos os elos da cadeia”, explicou. 

Durante o Painel “Alimentos e Bioenergia Integrados”, o moderador Marcos Jank, professor sênior de Agronegócio Global do Insper e coordenador do Centro Insper AgroGlobal, destacou que os sistemas integrados têm um forte embasamento científico e territorial. “A indústria entra com tecnologia, modernidade e escala. O resultado é aumento de produtividade com redução do impacto ambiental”.

Gustavo Spadotti, chefe-geral da Embrapa Territorial, reforçou o protagonismo da ciência nacional no avanço dos sistemas produtivos. “Temos uma ciência brasileira, feita por brasileiros e que hoje é referência para o mundo. Superamos barreiras genéticas na soja, promovemos melhorias genéticas na pecuária e avançamos em produtividade dentro de uma plataforma científica e tecnológica que conecta pesquisa, campo e mercado.” Também destacou o papel da economia circular como eixo estruturante da integração e que não há uma receita de bolo para sistemas integrados.

No debate, Monica Pedó, Sustainability Program Manager da John Deere, destacou que a evolução tecnológica voltada à integração de culturas está no centro da estratégia da companhia. “Estamos integrando conhecimentos agronômicos, digitais e operacionais para promover a evolução das máquinas com mais eficiência e rentabilidade ao produtor.”

Willian Marchió, diretor executivo da Rede ILPF, afirmou que adoção do sistema integrado exige mudança de mentalidade e planejamento técnico. “Fazer a integração não é simples, mas os resultados são extraordinários”. De acordo com ele, o modelo sustentável da Rede ILPF se baseia na intensificação produtiva com diversificação de atividades na mesma área, promovendo recuperação de pastagens, melhoria da fertilidade do solo, aumento do sequestro de carbono, bem-estar animal e maior eficiência no uso de insumos.

Sistema ILPF para produtor de pequeno porte

De modo contrário ao senso comum, o Sistema Integração-Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) também apresenta viabilidade para o pequeno produtor rural, assinalou o professor da Unoeste, Neimar Nagano, no painel “Modelos Produtivos Integrados”, durante o “Fórum Integração e Biocompetitividade: A Solução Brasileira”. “A ILPF é para todos, do pequeno produtor, passando pelo médio, até o grande”.

Na liderança do Projeto PPPS (Pequena Propriedade Produtiva Sustentável) da Unoeste, Nagano desenvolve na região do Pontal do Paranapanema, interior de São Paulo, iniciativa de capacitação e de transferência de tecnologia para expansão do Sistema ILPF junto a produtores de pequeno porte na região. “Os sistemas integrados têm o potencial justamente para diversificar a renda do produtor de menor porte, com base nas atividades que ele já desenvolve”.

Moderado por Camila Leonelli, gerente de Sustentabilidade da Syngenta, o painel trouxe também o case da produtora Flávia Garcia, gestora da Fazenda Jacaratiá, como exemplo de integração produtiva com geração de valor agregado. “A origem da fazenda era a pecuária. Em determinado momento, enxergamos nas plantas medicinais uma oportunidade de integrar a lavoura a um novo sistema produtivo”. A partir dessa visão, nasceu uma microdestilaria para a produção de óleos essenciais.

João Brunelli Jr., assessor técnico da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI), falou sobre o trabalho realizado pela instituição para promover e consolidar a integração produtiva entre diferentes perfis de produtores no Estado de São Paulo e afirmou que cada propriedade é um projeto único, com seus próprios recursos, limitações e capacidades. “O papel da assistência técnica é justamente identificar essas características e construir um plano adequado.”

Indústria no modelo ILPF

O painel “Integração Agroindustrial” aprofundou o debate sobre a incorporação da indústria aos sistemas produtivos integrados como estratégia para ampliar competitividade e sustentabilidade. O moderador Luiz Carlos Corrêa Carvalho, vice-presidente da ABAG, defendeu a ampliação do conceito de ILPF com a inclusão direta da agroindústria no modelo. “Precisamos acrescentar a indústria ao sistema ILPF. Integrar a indústria ao processo produtivo é fundamental para fortalecer a biocompetitividade”.

Para Walmir Segatto, diretor-presidente executivo da Credicitrus o modelo de crédito precisa estar integrado ao produtor. “A eficiência operacional nas operações financeiras é essencial para criar margens de receita capazes de sustentar as despesas.” Para Segato, o cooperativismo tem sido vetor desse ciclo virtuoso. “O crédito dentro do sistema cooperativista hoje gera um ciclo produtivo positivo para os associados, não apenas no Brasil, mas com conexão ao mercado global”.

No painel, Álvaro Duarte, diretor-presidente da Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa do Agronegócio (Fundepag) analisou que as organizações de pesquisa perceberam que é preciso combinar financiamento estruturado, participação de empresas e políticas públicas para acelerar o desenvolvimento científico. “Hoje vemos institutos acoplando unidades de pesquisa e desenvolvimento de empresas, criando ambientes colaborativos capazes de desenvolver tecnologias aplicadas à agricultura e à pecuária”.

Governança como pilar para a sustentabilidade

Durante o painel “Escala, Sustentabilidade e Oportunidade”, Juliana Cibim, sócia da ERM Brasil, destacou a governança como eixo estruturante da integração produtiva, trazendo caminhos para o desenvolvimento da sustentabilidade do ponto de vista social, ambiental e econômico. “A gestão da sustentabilidade precisa estar fortalecida e consolidada dentro do negócio, especialmente em um mundo de incertezas”.

Sobre o papel estratégico do crédito, Victor Bachega, superintendente de Agronegócios no Banco Bradesco, reafirmou a importância de se financiar corretamente, com estratégia e sustentabilidade econômica e a capacidade do Brasil liderar a transformação da segurança alimentar global.

Moderado por Eduardo Bastos, da CCarbon/USP, o painel trouxe também as avaliações de Rui Rosa, diretor executivo da Rede ILPF, sobre a mobilização institucional que consolidou o programa. “A Rede ILPF mobilizou a Embrapa, grupos empresariais e centros de pesquisa para assumir um compromisso real de transformação no campo.” Para ele, a mobilização gera resultados concretos. “Integração significa redução de riscos econômicos, melhoria do IDH regional e múltiplas atividades na mesma área, o que muda a realidade do produtor”.

Para Eduardo Bastos, “o agronegócio brasileiro vai crescer, mas as emissões do setor não, exatamente pelo fato que soluções sustentáveis, que promovem aumento de matéria orgânica no solo e sequestram carbono, como, por exemplo, o Sistema Integração-Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) registram expansão no setor”.