Mercado brasileiro é ambiente atraente para UE, e a recíproca é verdadeira

Ofertar ao consumidor brasileiro experiências gastronômicas e sensoriais, explorando o histórico e a origem de produtos com indicação geográfica. Esse é um dos objetivos do acordo em negociação entre Brasil e Comunidade Europeia, e foi tema que permeou as reuniões da delegação empresarial agroalimentar formada por cerca de 80 produtores e organizações europeias do setor, que acompanhou Christophe Hansen, comissário Europeu para Agricultura e Alimentação, no período de 20 a 24 de outubro.

O acordo entre os blocos vem sendo elaborado há cerca de dez anos e esbarra em barreiras tarifárias e dificuldades regulatórias, assim como em contrapartidas comerciais, pois as diferenças existentes entre os dois blocos, inclusive relacionadas ao fato de a agricultura brasileira ser tropical, nem sempre são bem compreendidas. Exemplo é que a participação da EU nas exportações brasileiras é de apenas 14% e pode crescer muito.

Mas, fornecer para o Brasil e o Mercosul é algo extremamente atraente, como foi ressaltado pelo comissário Hansen, e envolve criar “uma comunidade de 700 milhões de pessoas que é de grande importância, não só em termos econômicos, com a criação de um grande mercado, mas também em termos geopolíticos, como a criação de um bloco de parceiros com afinidades que favorecem o multilateralismo, o intercâmbio aberto e a sustentabilidade, tudo baseado em regras.”

Essa meta ganha força quando é considerada a realidade expressa por Fernanda Maciel Carneiro – diretora adjunta de Relações Internacionais da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, em um dos painéis do encontro realizado no dia 23 de outubro, entre Comissário Hansen, a delegação europeia e representantes brasileiros do setor. Como lembrou a diretora da CNA, o País assiste à “recuperação da classe média, que hoje, somadas as classes A, B e C, corresponde a 50% da população brasileira, e deve seguir crescendo nos próximos anos”.

Em paralelo a esse cenário, Carneiro destacou a diversidade de culturas agroalimentares brasileiras e a grande capacidade produtiva de um país que se tornou modelo de agricultura tropical e chega a registar até três safras por ano. Frisou, ainda, que “temos muitos produtos da sociobiodiversidade que podem ser exportados e utilizados como ingredientes pelos produtores da Comunidade Europeia, por exemplo”.

O olhar dos produtores da UE

Secretário-geral da EDA – European Dairy Association (Associação Europeia de Laticínios), Alexander Anton vê “oportunidades de negócios e parcerias estratégicas muito claras que promovem as agendas de criação de produtos lácteos de valor agregado, sustentabilidade e rastreabilidade, e inovação dentro do mercado brasileiro. Aqui, nosso foco está tanto nos produtos lácteos importados (B2B e B2C, como queijo, manteiga, ingredientes de soro de leite) quanto no papel das empresas de laticínios europeias na transferência de tecnologias avançadas de processamento, capacidades de pesquisa e melhores práticas – aliás, um processo de mão dupla nesse meio tempo.”

Sua posição está baseada no que ele define como “longa integração de várias empresas de laticínios europeias na ‘lactosfera’ brasileira.” Essa colaboração – garante ele – ajuda a atender às necessidades de um mercado consumidor brasileiro “cada vez mais sofisticado, ao mesmo tempo em que apoia o fornecimento de produtos lácteos acessíveis e nutritivos para os consumidores na base da pirâmide no Brasil.”

A contrapartida para a agroindústria brasileira – assegura Anton – funda-se nas oportunidades e na conscientização “no mais alto nível político de ambos os lados sobre a importância de nosso relacionamento no setor de laticínios entre a UE e o Brasil. O Comissário da UE, Christophe Hansen, deixou bem claro em seus discursos em São Paulo: A União Europeia se orgulha de ser um parceiro confiável e seguro a nível internacional. E essa confiabilidade vai muito além das relações comerciais agroalimentares.”

Franz Xaver Ladenburger, CEO da Max Ladenburger Söhne Heimatsmühle GmbH & Co. KG, destacando a diversidade de indústrias e produtores da produção de alimentos na União Europeia presente na delegação, como são acompanhados “pelo nível político correspondente”, abrem, potencialmente, “múltiplas possibilidades de intercâmbio mútuo e de desenvolvimento concreto de relações comerciais. Idealmente, tais iniciativas resultam em um movimento de mercadorias em ambas as direções.”

Citando sua empresa como exemplo, Ladenburger informou que a estão trabalhando “intensamente com nosso parceiro brasileiro – também uma empresa familiar, a Aidu – para construir tal relacionamento mútuo no comércio de mercadorias nos próximos meses. Além da consideração puramente econômica, o aspecto de aprofundar o relacionamento entre pessoas de diferentes continentes é igualmente importante para mim.”

O empresário crê, também, que “a troca de experiência e o conhecimento fornecidos por ambos os lados em relação a diferentes áreas basicamente abrem a possibilidade de que um possa aprender com o outro, por exemplo, no que diz respeito a métodos de cultivo, processos de processamento existentes, conhecimento do produto e a variedade de aplicações. Isso além dos aspectos de eficiência e gestão com economia de recursos. Também aqui, a possível transferência de experiência e know-how não é uma via de mão única.”

“O aprofundamento desejado do relacionamento entre os Estados Membros do Mercosul e a União Europeia que melhora e facilita, pelo menos, a possibilidade de entrada mútua no mercado. A decisão final, no entanto, é tomada pelo consumidor. Tal abertura, se o comércio em pé de igualdade for viabilizado, é contrária ao isolamento por tarifas arbitrárias”, assegura Ladenburger.

A conexão entre os mercados europeus e do Mercosul resultante da migração histórica, para Markus Suttle, diretor de Relacionamentos da Intrepid Spirits é fortalecida pelo fato de a Irlanda – país de origem da empresa – ter “uma população brasileira significativa que hoje aproxima os mercados mais do que nunca. A missão reúne representantes da indústria e produtores com seus homólogos brasileiros, construindo uma plataforma para colaboração. Missões comerciais diferem de uma visita de mercado tradicional, pois são uma oportunidade de aprender e desenvolver juntos, em oposição a apenas uma visita de vendas comum. A missão traz um grupo amplo de pessoas de todas as indústrias agroalimentares para introduzir novos produtos e ideias e construir relacionamentos mutuamente benéficos.”

Outro ponto positivo alinhado por Suttle é visitar e experienciar os mercados uns dos outros. A iniciativa, para ele, de experienciar as diferenças, tanto positivas quanto negativas, em primeira mão, é a melhor maneira de compartilhar ideias e fomentar relacionamentos. “Esses aprendizados nos permitem focar no que é adequado para os mercados de cada um e aconselhar as mudanças ou adaptações necessárias para ser bem-sucedido em cada mercado”, reforça, garantindo que “tanto a Europa quanto o Brasil têm demanda por produtos de qualidade e ambos podem produzir produtos de qualidade.”

O diretor de Relacionamentos da Intrepid Spirits também alinha como condição de mercado ideal “política tributária clara, justa e consistente, que não penalize o consumidor e garanta valor e escolha. “Isso deve funcionar nos dois sentidos, beneficiando o consumidor brasileiro e o europeu. À medida que expandimos nossos negócios na Intrepid Spirits, queremos focar em mercados que sejam confiáveis e consistentes para permitir planejamento e foco de longo prazo, e espero que o mesmo aconteça com as empresas do agronegócio brasileiro que exploram suas oportunidades de exportação, que podem ver a UE como um parceiro justo e confiável”, resumiu.